Corte no dedo: O que fazer?

Corte no dedo: O que fazer?

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Os ferimentos corto-contusos (FCC) nos dedos são um dos principais acidentes domésticos do dia-a-dia. Os cortes ocorrem nas mais variadas situações envolvendo facas, copos e louças quebradas.

Essas feridas costumam sangrar muito no momento do acidente, pois as mãos e os dedos são regiões muito vascularizadas. O recomendável, logo após o acidente, é lavar a ferida com água corrente e estancar o sangramento com um pano limpo pressionando a ferida. Deve-se evitar compressão circular excessiva devido ao risco de comprometer a circulação do dedo. Após essas medidas iniciais, o ideal é que o paciente procure um pronto-socorro de ortopedia para uma avaliação mais detalhada.

O FCC ou corte pode comprometer somente a pele e o subcutâneo e nesta situação de menor gravidade, a limpeza cirúrgica sob anestesia local e a sutura de pele resolvem o problema.

Quando há perda de movimento do dedo após o corte, deve-se suspeitar de uma lesão tendínea. Se houver perda da capacidade de flexionar ou “dobrar”o dedo, o tendão flexor foi comprometido e o corte se localiza na face palmar do dedo.

Se houver perda da capacidade de extender ou “esticar”o dedo, o tendão extensor foi comprometido e o corte se localiza na face dorsal do dedo.

Um outro aspecto de fundamental importância é a avaliação da sensibilidade do dedo. Os nervos digitais dos dedos são frequentemente acometidos nos cortes de dedos e o sintoma típico é dormência numa das bordas dos dedos, associado a sensação de choques na região do corte. Cada dedo é suprido por 2 nervos digitais que são responsáveis pela sensibilidade das bordas radial e ulnar do dedo. Se o nervo digital radial for lesado, a borda radial do dedo ficará dormente. Se o nervo digital ulnar for lesado, a borda ulnar do dedo ficará dormente. Em cortes mais extensos, os 2 nervos podem ser lesados em conjunto com os tendões flexores.

Na vigência de uma lesão de tendão ou nervo, o paciente deve ser encaminhado a um cirurgião de mão para tratamento adequado das lesões. Se houver uma boa infra-estrutura hospitalar  no pronto-socorro e equipe de retaguarda disponível de cirurgia da mão, o paciente pode ser operado na urgência. Infelizmente, essa não é a realidade na maioria dos hospitais do Brasil e nessa situação o melhor é lavar, suturar a ferida e imobilizar. O paciente deverá ser encaminhado dentro de 1 semana para agendamento da cirurgia definitiva: tenorrafia e microneurorrafia.

Um atraso demasiadamente prolongado (maior que 3 a 4 semanas) na avaliação e na cirurgia, pode comprometer o resultado final da movimentação e sensibilidade do dedo.

Um tendão flexor lesado tende a encurtar e entrar em contratura miostática. Além disso, o sistema de túneis ou polias pode estreitar e impedir a passagem do coto de tendão inchado.

Um nervo digital lesado também retraí e as bordas dos cotos lesados degeneram, criando um defeito de nervo muito grande para ser reparado de maneira direta. Nessa situação, a neurorrafia direta fica inviabilizada e um enxerto de nervo deve ser interposto para possibilitar a reparação do nervo. A utilização de um enxerto de nervo de interposição significa uma incisão cirúrgica a mais no paciente, além de provocar uma área de dormência numa outra parte do corpo onde a sensibilidade é menos importante que a sensibilidade do dedo lesado. Funcionaria como uma troca vantajosa para o paciente. Por esta razão, é preferível o reparo direto do nervo lesado sempre que possível.

No período pós-operatório, o paciente permanece com a mão e os dedos imobilizados por uma tala ou órtese, por um período que varia de 2 a 6 semanas de acordo com a gravidade da lesão e as estruturas acometidas. Também é fundamental o início precoce da terapia ocupacional para reabilitação adequada do dedo comprometido.

 

lesão de tendão flexor do 5o dedo

lesão de tendão flexor do 5o dedo

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Exploração do tendão flexor

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Tendão flexor retraído na palma da mão

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Passagem do coto do tendão lesado através das polias

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Reparo do tendão flexor na falange distal do dedo com auxílio de mini-âncora.

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Aspecto pós-operatório imediato do tendão reparado

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Resultado pós-operatório após 6 meses.

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Resultado pós-operatório após 6 meses.

 

 

Lesão do nervo digital do 3o dedo.

Lesão do nervo digital do 3o dedo.

Reparo direto de lesão do nervo digital do 3o dedo, sem interposição de enxerto.

Reparo direto de lesão do nervo digital do 3o dedo, sem interposição de enxerto.

Lesão do nervo digital do 5o dedo encaminhado para avaliação tardiamente. Notem que o defeito resultante do nervo impede o reparo direto do mesmo.

Lesão do nervo digital do 5o dedo encaminhado para avaliação tardiamente. Notem que o defeito resultante do nervo impede o reparo direto do mesmo.

Retirada de enxerto do nervo cutâneo medial do antebraço através de uma incisão no cotovelo.

Retirada de enxerto do nervo cutâneo medial do antebraço através de uma incisão no cotovelo.

Enxerto de nervo posicionado para fazer uma ponte entre os cotos do nervo digital lesado.

Enxerto de nervo posicionado para fazer uma ponte entre os cotos do nervo digital lesado.

Enxerto de nervo interposto no defeito.

Enxerto de nervo interposto no defeito.

Enxerto de nervo suturado aos cotos do nervo lesado com técnica microcirúrgica. Visão microscópica.

Enxerto de nervo suturado aos cotos do nervo lesado com técnica microcirúrgica. Visão microscópica.